Solar dos Andradas
- 24 de ago. de 2018
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Atualizado: 27 de ago. de 2018
Com a serenidade de quem já viveu muito e tem bastante história para contar, se exibe imponente o Solar dos Andradas na praça de mesmo nome. É fácil notar sua presença na rua XV de novembro, principal artéria da cidade. Azul e branco com um pavimento sobreposto ao outro, é notória a sua afinidade com os sobrados que muito definem a imagem de Minas Gerais. Tão plural é a história do estado quanto é rico o passado deste sobrado.
O Solar conta narrativas repletas de personagens que tiveram grande relevância na política nacional. Alguns nomes se repetem, porém são outros rostos e, por sua vez, outros contos. Conta a história que lá em Santos, o Coronel Bonifácio José uniu sua existência à de Maria Bárbara da Silva. Gozavam de grande prestígio social e político, contudo, talvez sua maior riqueza tenha sido a concepção da trindade Andradina: José Bonifácio de Andrada e Silva, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Martim Francisco Ribeiro de Andrada. Gabriela Frederica, filha de José Bonifácio, que por sua vez deixou sua marca na história como o Patriarca da Independência, casou-se com seu tio Martim Francisco. Desta união nasce Antônio Carlos Ribeiro de Andrada que por problemas de saúde, muda-se para Barbacena. Aqui contraiu matrimônio com Adelaide
Lima Duarte, criando o ramo mineiro da família Andrada.
O pai de Adelaide, o Conselheiro Feliciano Coelho Duarte, também proprietário da Fazenda da Borda do Campo, ofereceu como dote de casamento de sua filha o sobrado. Portanto, é em 1864 que este passa a ser propriedade desta família. A edificação foi construída na primeira metade do século XIX e ao longo de sua existência acolheu notórias figuras políticas. Por mera alusão, pode-se citar: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, filho de Adelaide e Antônio, que preencheu os cargos de Presidente do Estado de Minas, Presidente da Assembleia Constituinte de 1934 e Presidente Interino da República; e seu irmão José Bonifácio de Andrada que, também com sua relevância, foi
embaixador, diplomata, deputado e escritor.
Em termos arquitetônicos, o sobrado segue os padrões da arquitetura civil do século XIX contando com seu partido retangular, alinhado à rua e desenvolvido em dois pavimentos. Após algumas reformulações em que culminou na mudança de sua configuração ao acrescentar partes ao imóvel (primeiro resultando em formato de L e, posteriormente, em formato de U) o pavimento térreo, tem seus espaços distribuídos em uma grande área para comércio, um depósito, três salas e uma biblioteca particular da família. A partir de um pequeno hall se dá o acesso ao pavimento superior no qual há 22 cômodos, sendo sete quartos, três banheiros, cinco salas, escritório, sala de jantar,
cozinha, despensa, circulação e o hall de acesso.
O telhado do bloco original é repartido em quatro águas, coberto por telhas cerâmicas do tipo capa e bica. Já as coberturas das partes acrescidas são feitas em duas águas com a mesma proteção do bloco original. O sistema construtivo adotado no primeiro pavimento foi em estrutura autônoma de madeira apoiada em alvenaria de pedra. Já no segundo pavimento, antes em sua totalidade em pau a pique, foi substituído, em partes,
por alvenarias de tijolos cerâmicos.
Na fachada frontal há correspondência vertical de seus elementos entre ambos os pavimentos. No primeiro há quatro portas de madeira almofadadas com soleira de pedra e duas janelas do tipo guilhotina. Ao lado esquerdo, há um Passo de forma quadrada, em alvenaria e piso de pedra e paredes pintadas. No segundo há seis janelas rasgadas por inteiro, com sacadas isoladas em ferro com verga em arco abatido e enquadramento em madeira.
Por sua relevância histórica e por boa parte de sua existência ser de pertencimento a esta família de grande atuação política, o sobrado teve como acervo singularidades, tais como: documentação inédita sobre a participação de Barbacena na Revolução de 30; bustos, fotografias, litografias e comendas do Embaixador José Bonifácio; uma ampla biblioteca particular que também conta com farta documentação da família; parte de seu mobiliário pertencente a segunda metade do século XIX; e por último, com igual curiosidade, um pequeno quadro com o cabelo de José Bonifácio, o patriarca da Independência.
O imóvel, que também é tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Artístico de Barbacena, teve seu tombamento como patrimônio nacional realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional em 13 de junho de 1988. Com a tranquilidade de quem vê o tempo transcorrer na praça, este sobrado acumulou muitas histórias para contar. Entre tantos Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco a narrativa prossegue. Em todo crepúsculo, o Solar dos Andradas recebe o sol batendo em parte da sua fachada como o próprio nome sugere. O horizonte parece apontar que a
história continua.
Autor: Lílian Ribeiro Mendes Apolinário
Fotos: Victor Hugo Vieira
















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